Fui questionado por uma pessoa, aqui onde vivo atualmente, sobre como a religião poderia ajudar a promover a paz na cidade. Abaixo, compartilho com você a resposta que enviei ao questionador. Para sua informação e ajuda na compreensão do texto, a cidade da ocasião é Brasília.
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Para início da resposta a esta pergunta trago inicialmente um entendimento e em seguida um parágrafo.
Um entendimento: substituo a palavra religião pela expressão “vida espiritual espelhada aos demais aspectos do viver”. Faço isso porque o Budismo Niskama Karma não é uma religião, conforme explicado em textos anteriores.
O parágrafo: A paz não é uma dádiva mística que desce dos céus para os justos. A paz é obra artesanal, paciente, política e coletiva. É o fruto que nasce quando há ética encarnada, justiça realizada e compaixão em movimento.
Muito bem, no Budismo Niskama Karma aprendemos que o caminho da realização pessoal não é um convite para fugir do mundo, mas para transformá-lo a partir de uma consciência desperta. Isso significa que o praticante não pode se contentar em buscar paz apenas no seu interior, como quem se refugia em uma caverna ou em um mantra que o isola da realidade concreta. A paz verdadeira (aquela que transforma a cidade, a região, a sociedade) exige o que podemos chamar de práxis lúcida e compassiva.
Se há um lugar que precisa de paz construída, este lugar é aquele que concentra o poder de decisão sobre uma nação inteira, mas que convive diariamente com a separação brutal entre centro e periferia. De um lado, palácios de mármore e arquitetura monumental, onde se decidem os rumos do país. De outro, regiões que sequer contam com saneamento básico adequado ou com transporte digno. Em alguns bairros, o Estado aparece como símbolo de poder e representação política; em outros, sua presença se resume a batalhões de polícia e promessas de campanha.
O olhar budista sobre políticas públicas nesse contexto começa por um diagnóstico claro: o sofrimento é socialmente distribuído de forma desigual. E isso não é um acaso do destino ou um capricho do que chamamos no budismo de carma individual, mas sim fruto de escolhas políticas, de estruturas históricas que segregaram e que continuam segregando.
É um erro reduzir a pobreza, a violência e a exclusão à ideia de “carma pessoal”, como se o sofrimento social pudesse ser justificado simplesmente por faltas cometidas em momentos desta e de existências passadas.
O Budismo Niskama Karma nos convida a romper com essa leitura superficial e a olhar para as condições presentes, para os determinantes históricos, econômicos e políticos que moldam a dor coletiva.
Por isso, um praticante budista atento não pode ignorar que a fome, o desemprego, a ausência de acesso pleno à saúde e educação, que são realidades nas periferias dessa cidade onde vivo, não são problemas pessoais ou falhas de caráter. São expressões do sofrimento coletivo. E se nosso propósito é aliviar o sofrimento dos seres, como ensinou o Buda, então transformar o espaço social e político é uma forma legítima e necessária de prática espiritual.
Quando circulamos pelas diferentes regiões da cidade percebemos que a geografia do sofrimento também está marcada pelo CEP. Há regiões onde a educação pública é precária, onde o acesso à cultura e ao lazer é quase inexistente, e onde o jovem negro e periférico é o principal alvo da violência. Não é possível falar de paz enquanto o chão de uma parte da cidade é forrado de privilégios e o de outra parte, de ausências. As oportunidades de uma criança nascida nos arredores dessa capital política não são as mesmas de uma criança nascida perto do centro administrativo. Não basta falar de meritocracia quando o ponto de partida é tão desigual. A espiritualidade que ignora isso não é libertadora: é cúmplice da opressão.
Na minha compreensão, o budismo propõe o entendimento da interdependência radical: não há paz em um setor isolado enquanto o sofrimento campeia nos arredores. Uma cidade não pode se sustentar em muros invisíveis que separam quem pode tudo de quem pode quase nada. Paz local exige políticas públicas estruturantes, que incluam educação libertadora e de qualidade que não seja privilégio de alguns bairros, saúde pública integral que vá além das promessas de postos e chegue como cuidado real nas áreas mais distantes do centro político, mobilidade urbana digna, que não transforme o deslocamento diário da periferia para o centro em um calvário de horas e cansaço, segurança que não seja repressão seletiva, mas prevenção através de políticas sociais.
O Budismo não se propõe a ser uma ideologia política, mas traz um princípio ético que pode e deve orientar o olhar sobre as políticas públicas: o da compaixão lúcida. Isso significa criar políticas que não apenas administrem os problemas, mas que busquem as causas profundas do sofrimento social. A compaixão lúcida não é paternalista, não transforma o outro em objeto de caridade, mas reconhece sua dignidade e potencialidade. Por isso, políticas públicas baseadas na compaixão devem ser pensadas junto com quem sofre, não para quem sofre. O pobre, o excluído, o periférico, não precisam de salvadores, mas de parceiros na construção de soluções.
Nesta cidade onde decisões nacionais se acumulam em edifícios imponentes, há também um distanciamento gritante entre quem legisla e quem vive o cotidiano das regiões mais carentes. O Budismo nos ensina que é preciso olhar para todos os seres com equanimidade e isso, em termos de gestão pública, se traduz na necessidade de políticas que promovam redistribuição de oportunidades e reparação histórica. Para a paz se estabelecer de fato, é necessário transformar a cidade em um território de encontros: onde o servidor público que trabalha no centro compreenda que seu bem-estar também depende do bem-estar das periferias; onde o jovem “da quebrada” tenha acesso ao teatro, à ciência e ao esporte — não apenas ao asfalto quente da rua.
Além disso, há que se falar da espiritualidade do servidor público. Em uma cidade marcada pela presença expressiva de servidores, é fundamental que cada um que ocupa um cargo público entenda sua função não como um emprego qualquer, mas como um serviço à coletividade. A prática espiritual budista inspira no sentido de serviço desinteressado: atuar não por vaidade, poder ou estabilidade financeira, mas pela oportunidade de contribuir para a transformação do mundo. Servir ao público, neste caso, é um exercício espiritual de desapego e de cuidado.
Uma política pública inspirada no olhar budista reconhece que todas as vidas importam, mas que as vidas vulnerabilizadas precisam de prioridade e proteção. Isso significa agir afirmativamente para garantir o que o Buda chamaria de condições favoráveis para o florescimento do ser.
Sem moradia, sem alimentação adequada, sem acesso à saúde e educação, ninguém consegue trilhar o caminho do despertar. A iluminação não é um luxo de quem tem tempo para meditar; é uma possibilidade real quando as condições básicas da existência estão garantidas.
A partir do Budismo, podemos aplicar uma caridade que pode ser chamada de compaixão organizada: o cuidado que deixa de ser apenas uma virtude pessoal para se transformar em políticas que garantem o básico para todos. E isso, para quem vive numa cidade como esta, é urgente.
Busquemos um plano de mobilidade que não veja o morador da periferia apenas como um número, mas como alguém que precisa chegar inteiro, digno, ao seu trabalho. Um plano de segurança pública que perceba que não se faz paz com mais armas, mas com mais livros, mais cultura, mais acesso, mais “ouvir e observar”.
A paz, aqui, não pode ser medida pela tranquilidade do centro, do plano piloto ou dos lagos; não enquanto as regiões periféricas ardem na luta pela sobrevivência.
Paz verdadeira é quando o brilho do centro não ofusca, mas ilumina a cidade inteira.
O budismo pode auxiliar ao demonstrar que ninguém desperta sozinho: o despertar é coletivo e a cidade que desperta como um todo para a paz o faz quando cada um, no seu lugar, no seu cargo, no seu bairro, age não apenas por si, mas pelo todo.
Assim, podemos dizer que a vida espiritual espelhada aos demais aspectos de viver promove a paz quando forma cidadãos éticos e críticos, inspira servidores públicos a exercerem seu papel como serviço real ao povo, pressiona o poder político por políticas inclusivas, acolhe, sem sectarismos, todas as dores humanas como sendo parte de si mesma.
Atitudes que podem ser adotadas para promover a paz:
· Participar ativamente dos espaços de decisão política e controle social, como conselhos comunitários e audiências públicas, como forma concreta de influenciar as políticas públicas em favor das periferias e dos mais vulneráveis.
· Fortalecer iniciativas comunitárias que levem educação, cultura e lazer às regiões menos assistidas contribui diretamente para reduzir as desigualdades e prevenir a violência.
· Praticar a compaixão organizada, apoiando e cobrando dos órgãos competentes políticas públicas inclusivas que garantam direitos básicos, como saúde, moradia, alimentação e transporte digno.
· No ambiente de trabalho e de convívio social, cultivar a ética do serviço desinteressado e o compromisso real com o bem coletivo, permitindo que o cuidado chegue efetivamente a quem mais precisa, alinhando ação com o princípio budista do desapego do ego em favor do todo.
A paz é, antes de tudo, o compromisso de não deixar ninguém para trás — nem na rua, nem no transporte, nem na educação, nem na memória. Onde houver esquecimento, que a prática budista nos faça lembrar. Onde houver injustiça, que ela nos impulsione a auxiliar na iluminação. Onde houver indiferença, que ela nos desperte.

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