terça-feira, 15 de julho de 2025

O que, como, por que e para que: o ofício de perguntar e a arte de existir

 


Colegas dirão que filosofar é um gesto de inquietação.

Porém, inquietar-se por si só, ainda é pouco: muitas pessoas se incomodam com o mundo, mas jamais o questionam. Alguns se assombram, mas jamais ousam se debruçar sobre o assombro. 


Eu poderia dizer então que filosofar é, antes de tudo, uma coragem ou impulso de perguntar?
Veja: Perguntar é um ato de resistência. Nesta época em que o mundo exige respostas instantâneas, o questionamento vem a ser um desacato, uma afronta à pressa, à superficialidade e à indiferença.


Podemos elencar quatro perguntas que, se colocadas com honestidade e autenticidade, abrem portas que talvez estivessem trancadas ou apenas entre-abertas: o que é? como é? por que é? para que é?


Essas perguntas não são minhas, tampouco são de algum mestre que ousou sistematizá-las como um evangelho de interrogações. Não. Elas são da própria essência humana, que desde o primeiro olhar para o céu estrelado ou para a lama que suja os pés, quis saber:

  • O que é isto diante de mim?
  • Como isto se dá?
  • Por que isto veio a ser?
  • Para que isto existe?


Estas são perguntas que nos constituem e que, ao longo da história, pensadores vêm deixando conceitos ou vestígios de respostas que não são definitivas, mas sim pistas para um caminhar menos cego.


O que é? — a inquietação pela essência

Diante de um mundo que existe, por que aceitar que ele apenas exista? Desde que Sócrates caminhava por Atenas, perguntando o que era a justiça, já se sabia que não basta ver: é preciso compreender o que se vê.
"O que é a justiça?", indagava o mestre. Não em busca de um conceito para catalogar, mas para romper com a cegueira da repetição.

Aristóteles, na alvorada da filosofia sistemática, registrou que "é do assombro que provém a filosofia". Este assombro é perplexidade e não medo. E foi sob o signo da perplexidade que se construiu a ontologia, o estudo do ser, que pergunta não apenas o que as coisas são, mas o que significa ser.

Séculos depois, Heidegger, como um arqueólogo da existência, alertou que havíamos esquecido a pergunta pelo ser:

"A questão do ser não é uma questão qualquer."

E de fato não é. Quando deixamos de perguntar o que algo é, também deixamos de perguntar o que nós somos.


Como é? — o labor pelo conhecimento

Se sei o que algo é, ainda assim falta saber como aquilo se apresenta, se transforma, se manifesta. É o campo da epistemologia: o modo como o conhecimento se dá.

Kant, o crítico das ilusões da razão, quis saber: "Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?"

Como podemos afirmar verdades universais sem depender exclusivamente da experiência? Como é possível conhecer sem cair no erro? O "como" filosófico é um convite à prudência: quem sabe como algo se dá conhece o caminho e quem conhece o caminho evita o precipício do estabelecimento de verdades absolutas.


Por que? — o impulso crítico e libertador

Muito bem, é possível que eu me sinta confiante em dizer, com relação a algo, que sei o que é e como é. Mas: por que é? Aqui entra o véu das causas, o véu dos fundamentos. Perguntar por que é esgarçar o tecido do mundo, para ver o que há por trás.

Aristóteles, sempre metódico, ensinava que para compreender algo, é preciso conhecer suas quatro causas: a material, a formal, a eficiente e a final.
Marx, olhando não para os astros, mas para as fábricas, disse que “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.”

Perguntar "por que" é mergulhar na crítica e descobrir que nossas ideias, nossos valores, nossa moral, são moldados pela vida concreta, pelas relações sociais e econômicas que se perpetuam. Dessa maneira, não perguntar "por que" é permanecer servo do não-assombro e da inquietação incômoda.


Para que? — o clamor pelo sentido

Por fim, chegamos ao "para que?", a pergunta sobre o sentido.

Aristóteles chamava isso de causa final: tudo existe por um fim. E o fim do humano, segundo ele, era a eudaimonia, uma felicidade que se dá na plenitude do ser.

Posteriormente, vem a nós o existencialismo de Sartre rasgando: “A existência precede a essência.” Não haveria um “para que” dado: o ser humano nasce, vive e morre sem uma finalidade escrita nas estrelas - cada um escreve seu próprio "para que", mesmo quando a tinta falta e o papel se rasga com o raspar da pena.


E por que essas perguntas ainda importam?

Vivemos na era do já-dito, da resposta instantânea, do Google que a tudo responde antes que a pergunta se complete. e da IA que busca em seu treinamento ou emula o conhecimento.

No entanto, saber o que algo é, como é, por que é, e para que é ainda é o caminho para nos mantermos humanos.
Perguntar é manter o olhar desperto.
Perguntar é não aceitar o mundo como nos é vendido.
Perguntar é o primeiro passo da revolução interior e social.


O ofício de perguntar como resistência (e o que o budismo tem a ver com isso)

Perguntar é, sobretudo, um ofício espiritual. Na tradição budista, perguntamos para compreender que a origem do sofrimento não é um destino, mas uma construção.
O que é o sofrimento?
Como ele se estabelece?
Por que ele se repete?
Para que sofremos, se podemos despertar?


Percebe que estas perguntas não nascem apenas de uma curiosidade intelectual, mas de um gesto de quem se recusa a naturalizar a dor como fatalidade?

Perguntar, nesse contexto, é insurgir contra a repetição inconsciente dos padrões que nos mantêm cativos.

O budismo nos ensina que o sofrimento não é um decreto divino, tampouco uma herança inevitável. É fruto de causas e condições que se entrelaçam, como os fios de uma rede que nós mesmos continuamos a tecer. Assim ensinou o Buda em sua Primeira Nobre Verdade, que resumimos no aforismo “Tudo é dor/insatisfação” segundo o Budismo Niskama Karma.

 

Logo em seguida, como sempre estudamos, ele nos apresenta a Segunda Nobre Verdade: A causa da dor é o apego - ou seja, a dor possui causas e, logo, elas podem ser investigadas, pelo menos até certo ponto.

Dessa forma, nos mantermos na senda do perguntar é seguir o exemplo do próprio Buda, que ao ver a velhice, a doença e a morte, não se contentou em desviar o olhar ou em adornar a dor com dogmas. Ele perguntou, investigou, meditou. E despertou.


O questionamento nos faz pensar e avançar para além do véu de Maya, o véu do mundo ilusório, que encobre a realidade e nos faz acreditar que o sofrimento é essencial à vida, quando ele é na verdade um sintoma da ignorância.


Por isso, o ofício de perguntar não se restringe ao debate acadêmico ou à curiosidade filosófica: ele é um treino do ser que deseja ver com os olhos do despertar.


Cada pergunta bem posta pode ser uma fresta na couraça do ego, uma rachadura por onde a luz pode vir a entrar.


E quando finalmente perguntamos: "para que sofremos, se podemos despertar?", tocamos o mais alto clamor ético e espiritual que um ser humano pode expressar. É o convite a substituir o hábito de sofrer pela coragem de se conhecer.


Quem pergunta já começou a acordar. E o despertar, como nos ensina o Buda, não é um prêmio, mas um retorno àquilo que sempre esteve disponível: a lucidez de uma mente que compreende que tudo o que surge, surge por causas, e tudo o que cessa, cessa porque suas causas cessaram.


Logo, perguntar não é apenas um método filosófico, mas um caminho de realização, de crítica, de poesia e de liberdade. Perguntar é, enfim, viver.

2 comentários:

  1. Parabéns! Seus ensinamentos são fundamentais num mundo convulsionado pela ira. Muita gratidão por divulgar a compaixão.

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  2. No capítulo 16 do Evangelho de João, versículo 33, nós lemos que "no mundo tereis tribulações", mas Jesus nos encoraja dizendo: "eu venci o mundo"

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